POSIÇÃO DA APEI SOBRE A REABERTURA DAS CRECHES
(Associação de Profissionais de Educação de Infância)
A APEI tem vindo a acompanhar a evolução do COVID19 no que diz respeito à educação de infância e tem evitado tomar posição pública sobre o assunto, essencialmente porque temos considerado que, dado o caráter absolutamente excecional em que vivemos e as consequências, mesmo a curto prazo (duas semanas), são ainda imprevisíveis, pois depende da forma como a pandemia for evoluindo em Portugal até essa data (relembrando que estamos em situação de confinamento apenas há pouco mais de um mês), se aconselha prudência para evitar formular juízos precipitados que em nada contribuirão para um processo de tomada de decisão que será sempre difícil e não consensual. O ponto de partida para que a APEI considere a reabertura das instituições que prestam serviço no âmbito da educação de infância (0-6 anos), em maio, será estarem garantidas todas as condições de segurança do ponto de vista de saúde pública para as crianças e famílias envolvidas, o que só a Direção-Geral de Saúde poderá atestar. Por outro lado, tendo em conta algumas declarações de membros do Governo vinda a público, preocupa-nos bastante esta divisão artificial criada entre a educação de infância 0-3 e a educação pré-escolar, como se os problemas colocados às crianças em creche e respetivas famílias não se coloquem, de igual modo, às crianças e famílias na educação pré-escolar. O regresso das crianças às instituições de educação de infância (creches), apenas é equacionado na necessidade de libertar os respetivos pais para o regresso ao trabalho presencial, para uma retoma progressiva da atividade económica (argumento ao qual a APEI também é, obviamente, sensível) pois, do ponto de vista exclusivo dos interesses da criança, esse regresso não deveria, de todo, acontecer. No entanto e tendo em conta a necessidade de ser retomada progressivamente a atividade económica normal, o que implica que os pais tenham que voltar aos seus locais de trabalho, não se compreende como pode ser equacionado o regresso das crianças dos 0-3 anos à creche e não se pensar, de igual modo, no regresso das crianças em idade pré-escolar (e do 1º ciclo do ensino básico), pois é difícil conceber que crianças ente os 3 e os 10 anos de idade possam ficar sozinhas em casa. Permitir que as crianças até aos 3 anos regressem à creche, mas impedir que as de pré-escolar o façam, vai colocar um número significativo de pais num dilema difícil de resolver, tanto mais que, é importante referir, mais de metade da resposta na educação pré-escolar é garantida pela rede pública. Relativamente à situação específica das crianças dos 0-3 anos, quer as características muito variáveis das creches, do ponto de vista de instalações, quer as
características específicas do desenvolvimento das crianças nestas idades, levantam um conjunto de preocupações que gostaríamos de enumerar: • As crianças em creche, ao contrário do que muitas vezes é o senso comum, contactam fisicamente muito umas com as outras. Longe vai o tempo de termos bebés em berçários confinados a camas de grades, em isolamento dentro de parques ou em cadeiras de tabuleiro. Atualmente, excecional e ocasionalmente utilizam-se esses equipamentos, mas é mais comum os bebés moverem-se livremente no espaço da sala, contactando e interagindo com os seus pares. • Por outro lado, a creche é uma valência que acolhe crianças entre os 03 anos, ou seja, crianças desde os 4 meses mas que, no limite, podem ir até aos 3 anos e 11 meses (quase 4 anos). Muitas crianças deixam de usar fraldas ainda durante a creche, comem sozinhas, sobem e descem escadas, recolhem o material para a sua higiene e sobem para o muda-fraldas autonomamente, pelo que não será possível equacionar situações em que as crianças estejam confinadas a espaços em que não convivam com os adultos ou com outras crianças, sem isso trazer severas consequências para o seu bem estar e desenvolvimento. • Também ao contrário do que muitas vezes se pensa (por quem não está por dentro da rotina de uma creche), os adultos em creche não conseguem manter um maior distanciamento das crianças, pois o adulto tem de estar sempre próximo (pegar ao colo, cuidar, alimentar, …). No regresso de crianças tão pequenas à creche, que estiveram dias consecutivos e integrais com os seus pais durante quase dois meses, haverá muito conforto e consolo a dar, (muita lágrima e baba para limpar!), não sendo possível equacionar a utilização de máscara pelos adultos, em que nem a expressão possa ser vista e sentida. Há crianças que vão voltar e trazer os hábitos de afeto que os tranquilizam e que podem ir desde os objetos afetivos, aos hábitos de tocar no adulto de referência (adormecer enrolando o cabelo, mexendo na cara,…), o que torna impossível conceber, por todas estas razões, uma distância física entre adultos e crianças. • Por razões ligadas ao seu desenvolvimento, é mais fácil que crianças de mais idade interiorizem as regras de distanciamento social do que a crianças de creche. Estas, para além de precisarem muito do contacto físico para se relacionarem, exploram tudo fisicamente e a boca é um dos órgãos preferenciais para a sua relação com o mundo (com os objetos e com os
outros), pelo que não é possível imaginar crianças destas idades a usar máscara ou luvas e cumprir regras de distanciamento. • Por outro lado, sabendo que o efeito da COVID19 em crianças destas idades é menor, na verdade o perigo de contágio, pelas razões referidas anteriormente, é muito maior. Para além disso, por razões diversas, é frequente as crianças terem alguma temperatura igual ou superior aos 37ºC, o que poderá levantar o alarme duma possível infeção e as consequências que daí advirão (isolamento, quarentena para toda a creche, …). • Se, na verdade, segundo os dados disponíveis, há poucas consequências do contágio para as crianças, um número significativo de creches da rede solidária coabita com adultos em centros de dia, cujas consequências da COVID19 são devastadoras para esse grupo etário. • Por consequência, não deveriam ser os avós a levar as crianças à creche e o contacto de crianças e idosos, deveria estar fortemente limitado ou mesmo impedido, para evitar desencadear cadeias de contágio. • Dada a enorme diversidade de contextos organizacionais em que a creche funciona (corredores apertados, salas e espaços contíguos, com centros de dia,…), é muito difícil generalizar regras comuns a todos, que salvaguardem as condições de segurança de crianças e adultos, pelo que as orientações a emitir deveriam ser de geometria variável, de modo a salvaguardar essa diversidade de contextos • Apesar dos argumentos apresentados inicialmente, considerando a possibilidade duma abertura apenas da creche, deveriam incluir-se os profissionais de toda a educação de infância (0-6 anos), de modo a que os educadores de infância e os auxiliares de educação fossem mobilizados em simultâneo, sendo que os educadores e auxiliares da educação pré-escolar apoiariam os educadores em creche, de forma a aumentar o rácio adultocriança, facilitando, assim, a regulação de comportamentos adequados à situação vigente.
Relativamente ao funcionamento da educação pré-escolar não presencial, a posição da APEI é a de evitar institucionalizar a casa das famílias, transformando-as em jardins de infância à distância, razão pela qual apenas tem enviado recursos muito pontualmente, tanto mais que já existe uma quantidade significativa disponível na internet/redes sociais, evitando, assim, correr o risco de acrescentar mais ruído a uma comunicação que se pretende útil.
A proposta da APEI é que os profissionais de educação de infância, nos contactos que fazem com as crianças, promovam o brincar com as mesmas ou promovam a organização de ambientes para que elas brinquem sozinhas ou com os pais e irmãos, contar histórias e conversar sobre elas, cantar, ver filmes juntos, preparar os alimentos com a participação de todos, estar durante as refeições, organizar as cestas, negociar regras, conversar sobre tudo em especial do momento que estamos a vivenciar. Deixar que as crianças contem o que estão a fazer em casa, o que veem das suas janelas, mostrarem os seus brinquedos, as suas casas, os seus irmãos, os seus animais de estimação. Criar pontes com a família, neste momento, é reafirmar a importância do papel da creche ou jardim de infância e da parceria entre escola e família, agendar conversas online, com as crianças, para se reverem, para manterem o vínculo neste período de distanciamento, é intensificar afetos, o mais importante a preservar nestes tempos difíceis que vivemos.
(texto retirado integralmente)

Uma Ceche é um espaço de afetos,
de colo e mimo...
Uma creche é um local de aprendizagens, de estarmos com os outros, de aprendermos com o toque, com a imitação, com a exploração do que nos envolve,
A creche é um lugar de experiências sensoriais, de brincadeiras diversas...
A creche é um lugar de partilha, é um lugar que se quer tranquilo, seguro, onde crianças, educadores, auxiliares e famílias se envolvem para dar o melhor a cada criança.
A creche não é um depósito.
A creche não é afastamento social.
A creche nunca poderá ser desprovida de mimo, conforto, envolvimento...
Todos (supostamente) queremos o melhor para as crianças, então não peçam ás creches, aos seus profissionais, que trabalhem em condições desprovidas de sentimento, envolvimento, tranquilidade...
Ou estarmos a criar situações que se pagarão caras no futuro de cada uma destas crianças.
Assim como elas não são "coisas", nós também não somos guardadores de "coisas".
Temos a capacidade de criar um ambiente seguro, sim, perfeito para o que se vive atualmente, talvez não, mas temos de acima de tudo confiar em cada família, que protegerá a sua criança, e em cada profissional e institução que tudo fará para que se minimizem riscos e tudo corra da melhor forma possível.
Todos temos os nossos medos, inseguranças... Mas somos PESSOAS e não OBJETOS que se podem colocar onde quisermos .
Não queremos crianças quietas, nem queremos crianças desprovidas de atenção...










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